Fui a única filha entre tantos irmãos, mas meus pais decidiram não me distinguir deles. Mamãe me ensinava os ofícios delicados – costurar, bordar, ordenar a casa –, e eu gostava de ver nascer das minhas mãos uma roupa inteira, como se cada ponto fosse um pequeno milagre. Mas bastava ouvir o tropel dos meus irmãos no quintal para que o bordado perdesse o sentido. Eu corria para junto deles: cavalgava, jogava bola, desmontava ferragens ao lado de meu pai, curiosa pela mecânica daqueles veículos que começavam a chegar à cidade. Creio que papai me permitia acompanhá-lo não por me julgar capaz, mas por desejar manter por perto a sua única princesinha, como ele dizia, sempre tão protetor.
Na minha adolescência, nenhuma menina se expunha às artes; ao menos, não publicamente. Eu escrevia poemas em segredo, enquanto as poucas escritoras usavam pseudônimos masculinos para existir no mundo impresso. Como fui criada sem as amarras tradicionais, não dava importância a essas fronteiras entre os ofícios. Assim, aos dezessete anos, matriculei-me no curso de pintura em tela de Almir Duran, o jovem prodígio da península. Ele não apenas aceitou minha inscrição, como encorajou outras mulheres a frequentarem seu ateliê — acompanhadas de pais ou maridos, ressalva que não se aplicava a mim. Eu ia só.
Duran tinha cabelos negros que reluziam como suas pupilas profundas. Era belo, mas mais que isso: havia algo em sua voz de leve sotaque sulino que parecia tocar regiões adormecidas da alma. Desenvolvi depressa o meu talento; cada aula era um sopro novo de vida. E junto da pintura, crescia silenciosa uma paixão que tentava negar. Sabia que era amor impossível — ele jamais se interessaria por uma moça interiorana como eu. Mas seus olhos, teimosos, diziam o contrário. E os olhos, dizem, são a própria alma sem disfarce.
Tomei a iniciativa. Depois de mais de um ano sob sua orientação, esperei todos saírem e permaneci no ateliê fazendo pequenos retoques no quadro recém-acabado. Quando ele se aproximou, procurei seus olhos e segurei sua mão. Houve um instante de suspensão, como se o mundo respirasse conosco. O beijo que veio em seguida foi mágico, tão inesperado quanto inevitável. Não sabíamos que um de meus irmãos, a mando de papai, vigiava meus passos à distância.
A descoberta caiu sobre mim como sentença. Fui proibida de estudar pintura e passei a treinar escondida em casa. A notícia se espalhou e Duran perdeu a maior parte dos alunos. Sentia-me culpada — não por amar, mas por ter sido eu a tomar o primeiro impulso. A dor corroeu minhas noites. Parei de pintar, parei de comer. A mente começou a se desfazer em sombras, e acabei internada. O amor, eu me perguntava, seria capaz de adoecer alguém?
Já não distinguia dia de noite. Meus pais, aflitos, tornaram-se vultos hostis aos meus olhos febris. No limite da loucura, ouvi o ruído de uma pedrinha na janela. Primeiro ignorei. A segunda pedra me fez levantar. Reconheci o rosto dele — iluminado pela noite. Abri a janela com o primeiro sorriso que me nascia em semanas. Ele escalou pela treliça como em um sonho, e nos beijamos.
— Perdoe-me pelo que aconteceu — murmurei, chorando entre alegria e angústia.
— Não foi culpa sua, Lucill. No amor não existem culpados. Venha comigo para a capital. Mil vezes escolherei você.
E pulei para o abismo — o abismo que era fuga, e também salvação. Deixei para trás um bilhete encharcado de lágrimas. Na capital, montamos nossa oficina. Passei a pintar com voracidade, e Duran se admirava com a força das minhas cores. Quando foi convidado para sua primeira grande exposição, ajudei-o em tudo. Eu leria alguns de meus poemas no vernissage. Não sabia que ele preparara uma surpresa.
A noite da exposição foi deslumbrante: museu lotado, vozes de críticos, artistas, jornalistas. Depois dos discursos e de meus poemas declamados, percorri as salas onde seus quadros brilhavam. Então ele me chamou, com um sorriso que eu conhecia tão bem, e me levou até o salão principal. Lá estava uma de minhas obras — “A Dama Triste” — exibida e assinada por mim, ao lado das dele.
— Espero que não fique magoada por ter colocado o quadro sem tua anuência — disse.
— Magoada? Meu amor, essa é a mais bela declaração que já recebi.
Naquela noite, nos amamos como se a arte, a vida e o corpo fossem a mesma coisa. Mas a repercussão no dia seguinte trouxe consequências inesperadas. Os críticos louvaram a exposição, mas reservaram especial atenção à ousadia de uma obra feminina em espaço tão prestigiado — e aos méritos dessa obra. Logo passei a receber convites. E foi então que percebi, primeiro nas sombras silenciosas de seu olhar, depois em suas atitudes, que Duran se magoava sem admitir. Recusei os convites. Escondi-me. Diminuí-me para que ele não se sentisse diminuído. Mas sua produção enfraquecia, e sua insegurança crescia entre nós como uma névoa espessa.
A crise que me levou novamente ao hospital foi inevitável. Meus poemas tornaram-se mais sombrios; alguns flertavam com a morte. Rasgava-os para não ver o que brotava de mim. Perdi o sono, arranhava os próprios braços. Duran visitava-me menos, com um sorriso que já não alcançava os olhos. Eu ainda o amava — talvez mais do que a mim mesma.
As visitas rarearam, e mergulhei num estado onde realidade e desejo se confundiam. Até que, certa noite, outra pedra tocou minha janela. Era ele. Abri silenciosamente, temendo os enfermeiros. Ele escalou a grade — ao menos foi o que vi — entrou e me beijou.
— Por que não veio mais, meu amor?
— Proibiram-me. Disseram que eu atrapalhava seu tratamento. Mas estou aqui. E estaremos juntos outra vez.
Na manhã seguinte, melhorei. Voltei a pintar. Escrevia poemas luminosos e suaves, todos permeados de esperança. Todas as noites, ele vinha — pela janela, pela sombra, pela necessidade absoluta que eu tinha dele.
Então mamãe veio visitar-me. Falávamos normalmente, até que lhe contei, num sussurro cúmplice, sobre as visitas noturnas de Duran.
— Minha filha… — mamãe estremeceu — ele entra no seu quarto?
— Sim, mamãe. Mas ninguém pode saber.
— E como… como ele entra com essas grades?
Olhei para a janela. Havia grades pesadas. Senti o chão sumir sob meus pés. Entendi tudo — ou quase tudo. Mamãe continuou, com voz trêmula:
— Filha, você precisa esquecer esse homem. Você voltará para casa. Vamos cuidar de você.
Fingi esquecer. Fingi não mais vê-lo. Fingi não amar — porque era a única porta de saída.
Voltei para minha cidade natal. A família me recebeu com bondade e perdão. , e todos me perdoaram por ter fugido por amor. Mas nenhum deles sabe que meu amor continua inteiro, maior que a realidade.
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Existe loucura em amar outro mais que a si mesma?
Sem questionar, joguei-me no abismo sem volta
Pre interna em minha própria cabeça
Alguma força em ti alimentava minha esperança
Coisa que rasga o peito e não morre pela lembrança
Ausente de sentido racional ou até instintivo
Que preservaria a própria vida ou sanidade
Me disse: “mil vezes escolherei você”, afetivo
Ator que abandona o papel nas cenas poentes
Mente em frangalhos pelo amor que sequer sentes.
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