Autor: Paulo Esdras
PERSONAGENS: Político, Diabinho, Anjinho, Mãe Caipira grávida e com bebê (bolsa), Bebum, Capoeirista zé, Capoeirista João, Sindicalista Ana, Sindicalista Norma, Sindicalista Vera, Jornalista Maria, Jornalista Pedro.
O Político entra acompanhado pelo Diabinho e Anjinho virados para a plateia. As sindicalistas estão na parte da frente da plateia.
O Político: Obrigado por me receberem aqui hoje nesta assembleia do sindicato! Quero deixar claro que não estou aqui por causa da eleição!
Sindicalista Norma: E o que estava fazendo este tempo todo?
O Anjinho (falando com o político): Estava gargalhando
O Político: Estava gargalhando (engasga) Trabalhando! Trabalhando!
Sindicalista Vera: Trabalhando, mas nunca apareceu para defender o trabalhador
O Diabinho: Diga que tinha três empregos
O Anjinho (falando com o político): Eu ria do desemprego!
O Político: Eu ria do desemprego (engasga) Eu tinha três empregos, três empregos! Estava trabalhando para a ponte do futuro de nosso país!
Sindicalista Ana: E a gravação do delator que diz que o senhor viajou em um avião cheio de drogas?
O Diabinho: jamais faria algo assim, deu pra entender? Um absurdo!
O Anjinho (falando com o político): Era farinha facin pra vender. E pra uso!
O Político: Era farinha facin pra vender. E pra uso! (engasga) jamais faria algo assim, deu pra entender? Um absurdo!
As sindicalistas começam a vaiar e o político sai correndo, mas o anjinho coloca o pé na frente e o político tropeça. Mais a frente encontra com dois jornalistas (Maria e Pedro)
Jornalista Maria: Olá, senhor candidato, trouxe o envelope? (O político entrega um envelope) Parabéns pela receptividade na assembleia do sindicato! Como estão as preparações para eleição?
O Diabinho: Agradeça e fale sobre a pesquisa falsa
O Político (Sorridente): Obrigado! Estou sempre na frente das pesquisas e de braços dados com aqueles que trabalham!
Jornalista Pedro: Mas o Doutor não foi a favor da destruição de direitos do trabalhador?
O Diabinho: Não, muito pelo contrário!
O Anjinho: Não contra meu salário
O Político: Não contra meu salário! (engasga) Não, muito pelo contrário! Pelo contrário! Sou a favor do crescimento de meu nariz! País! País!
Jornalista Pedro: Mas na condução coercitiva o senhor disse que nada sabia. Como pode se era chefe de todos os envolvidos?
O Diabinho: Eu não sei de nada
O Anjinho: foi minha esposa finada
O Político: foi minha esposa finada (engasga) Eu não sei de nada! Não sei de nada!
O Político sai correndo dos jornalistas e grita:
O Político: Chega! Tenho que falar diretamente com o povo. A eleição está chegando e não tenho o voto nem da minha mãe!
O Anjinho: Toda mãe sabe o filho que tem!
O Diabinho: Porque ainda não comprou a velha?
O Político: Isso mesmo! Acho que minha mãe está precisando de uma dentadura nova! Está banguela, banguela… Talvez ela vote em mim por um sorriso novo!
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Os capoeiristas entram jogando capoeira.
O Político: Temos que ir aonde o povo está! Depois eu tomo banho com detergente e vinagre.
O político entra jogando capoeira todo desengonçado. Os capoeiristas param e o político aperta a mão dos dois.
O Político: Dim dim, dim dim dim. Adoro a cultura, a arte, a ginga. Adoro o meu povo, o sorriso, as roupas, a pele…
O Anjinho: A cara de pau!
O Político: A cara de pau… (engasga) quer dizer, o Berimbau.
O capoeirista Zé: Beleza, beleza. Que bom que gosta da gente, mas você está interrompendo o nosso jogo aqui, tá ligado?
O Político: Que jogo! Adoro jogo. Mas só sei jogo de baralho, jogo de bola, jogo de dominó…
O Anjinho: Jogo sujo…
O Político: jogo sujo! (engasga) quer dizer, jogo de truco.
O capoeirista João: Dá pra perceber pela ginga mesmo (imita) parece mais um robô.
O capoeirista Zé: Diz aí, pedra. Veio aprender a jogar capoeira, foi?
O Diabinho: Diz que veio ajudar a cultura, ajudar a capoeira crescer na região!
O Político: Nada! Vim ajudar a capoeira a crescer!
O capoeirista João: ô Moço, você é político, acertei? Tô ligado na sua onda. De quatro em quatro anos vocês vem aqui pedir, prometer e quando é para cumprir, desaparecem.
O Diabinho: Diz que você é diferente!
O Político: Mas eu sou diferente! Eu gosto de trabalhar para o povo, eu acordo cedo, tenho coragem, não tenho medo. Eu quero ganhar para melhorar, para ajudar, para…
O Anjinho: Roubar…
O Político: Roubar (engasga) quer dizer, poupar.
O capoeirista Zé: Todos dizem a mesma coisa! Cai fora antes que se machuque com um rabo de arraia.
Os capoeiristas começam a jogar novamente e o político sai reclamando e limpando a mão.
O Político: Mas que povinho mais mal-educado.
O Anjinho: O povo não é mais besta não…
O Diabinho: Você tem que ser mais convincente! Pegar nas pessoas, abraçar, entendeu. Ali, tem uma multidão e a imprensa tá lá.
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O político observa a mãe caipira falando com uns fotógrafos. Ele chega pegando a criança, carregando e sorrindo para os fotógrafos.
O Político: Mas que criança linda! (beija a criança várias vezes e abraça a mulher) quero que vocês saibam que estou do lado das mulheres, das crianças, dos
O Anjinho: Da infâmia e da corrupção
O Político: Da infâmia e da corrupção… (engasga) quer dizer, da infância e do barrigão (aponta a barriga da caipira).
Mãe caipira: Pela fala, você é político, num é mesmo? Estou sendo intrevistada pelos jornalista aqui presentes porque este hospital está sem ambulâncias, sem médicos, sem remédios e já estou com a dilatação de 40 centímetros e tenho que pegar esta fila deste povo todo aí que você ta vendo.
O Diabinho: Aproveita! Faz o discurso que tudo vai melhorar com a sua candidatura!
O Político: E é ultrajante esta situação! Pois saibam que quando eu vencer esta eleição nada disso vai acontecer de novo!(gesticulando com o bebê) vou colocar mais ambulâncias, colocar mais hospitais, colocar mais médicos, colocar mais…
O Anjinho: No povo…
O Político: No povo… !(gesticulando com o braço rijo) (engasga) quer dizer, pro povo.
Mãe caipira: De novo esse papo. O povo já está cansado de ouvir isso seu moço! E me devolve minha bolsa com meus trocados para o senhor não querer levar antes de ser eleito! (Pega o embrulho na mão do político e revela que era uma bolsa em vez de um bebê)
O político Sai vaiado por todos e triste.
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O Político: Parece que o povo tá mais esperto. Será que é o fim da classe política?
O Diabinho: Que nada! Vocês vão mamar ainda durante muito tempo até o povo acordar! O São João está vindo. Depois vem o carnaval! O povo nem se lembra em quem votou na quarta feira de cinzas…. Olha ali, olha ali! Uma feira livre! Vamos até lá para ver se conseguimos enganar mais gente!
O político chega até um bar.
O Diabinho: Que cheiro horrível! Parece buchada de bode azedo!
O político tenta dar meia volta, mas o anjo o segura e o coloca em frente ao povo.
O Político: Olá meu povo! Mas que cheiro delicioso de buchada! A comida típica é a minha favorita!
Um bêbado sai do meio do povo, abraça o político
Bêbado: Você é político, não é?
O Político (tentando se afastar do cheiro de cachaça e da saliva do bêbado): Claro! Sou o seu candidato no dia da eleição! Como sabia que eu era…
Bêbado: Eu adoro os políticos nesta época eleitoral. Eles me abraçam, me escutam. Você veio almoçar no nosso humilde bar? Que coisa bonita! Ver um homem tão cheiroso, tão arrumado comer de nossa comida!
O Diabinho: Aproveita a deixa! Diga que é de origem humilde!
O Político (tentando se afastar do cheiro de cachaça e da saliva do bêbado): Meus queridos, eu sou de uma família humilde. Já morei em casa de taipa, em barraco na favela, em conjunto popular lá na
O Anjinho: cadeia…
O Político: Cadeia (engasga) quer dizer, em Candeias, Candeias!
Bêbado: Que bom, que bom, então vai adorar esta buchada da Friboi que preparamos pro povão daqui da feira. Sente um pouco. Quer uma pinga?
O político senta, olha o prato
O Diabinho: Agora vai ter que comer!
O Anjinho: O fedor ta parecendo de coro de boi defumado!
Bêbado: Pronto. Taí.
Os fotógrafos, jornalistas e sindicalistas chegam junto com os capoeiristas
Os jornalistas: Olha lá, o político vai comer a buchada!
O político quase chorando bebe todinho de gute gute e dá um sorriso amarelo para as câmeras
O Diabinho: Não vomite, não bote pra fora. Pense nos seus votos!
A Mãe caipira chega com um panelão
Mãe caipira: Gente, chegou a buchada! Tira a lavage da mesa para dar pros porco – se é que eles vão aguentar comê isso!
O político sai correndo com todos rindo e o diabinho atrás.
Todos rindo
Mãe caipira: Agora é só esperar o próximo político pra gente botar pra correr!
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FIM
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